Sem discussão ampla entre clubes, Congresso pode transformar MP em colcha de retalhos que provocaria confusão, em vez de melhorias na situação

A Medida Provisória 984/2020, festejada por Flamengo e Bahia como marco de independência, na minha opinião, provoca muitas dúvidas sobre os riscos e benefícios para as agremiações esportivas do futebol brasileiro.
Em vez de discutir o tema para melhorar o modelo atual, que (verdade seja sempre escrita) não é bom, o futebol brasileiro terceirizou diretamente para o Congresso Nacional um projeto que deveria ter sido apresentado ao Poder Legislativo somente após ampla discussão entre os próprios clubes.
Como não houve discussão alguma, o Governo de Jair Bolsonaro se apropriou da ideia de alguns dirigentes e apresentou ao Congresso um projeto que, para mim, pode ter efeito contrário e, até mesmo, significar um retrocesso.
Pelo texto apresentado na MP, é evidente que o Governo quer fazer o torcedor acreditar que mudar para o modelo mexicano é melhor do que estudar os modelos de direitos de transmissão de ligas reconhecidamente de sucesso, como os da Inglaterra, da Espanha, da Itália e da França, em busca de uma versão brasileira mais justa e lucrativa.
A Espanha, por exemplo, priorizava apenas Barcelona e Real Madrid nas negociações até 2005. Mas isso mudou. Com uma legislação visando à negociação coletiva dos direitos e com a criação da La Liga, o futebol espanhol foi elevado a um novo status financeiro e esportivo nas competições. Basta analisar o desempenho dos clubes daquele país nos últimos oito anos de todas as fases de mata-mata da Liga dos Campeões da Uefa.
Sinceramente, não acredito que o Congresso Nacional possa aprovar esse projeto da maneira como foi enviado. Mas temo que possa transformá-lo numa colcha de retalhos pior para a sobrevivência e a competitividade da enorme maioria dos clubes.
A Lei Pelé (Lei 9.615/1998) e o Estatuto de Defesa do Torcedor (Lei 10.671/2003), transformados pelo Congresso em colchas de retalhos em conflito, não devem ser esquecidos como exemplos negativamente marcantes num país de discrepâncias sociais, políticas e legislativas. O exemplo mais recente são as mais de 50 mil vidas perdidas desnecessariamente no caótico combate à Covid-19.
Sim, os clubes precisam analisar e debater muito bem os riscos e os benefícios dessa MP enviada ao Congresso pelo Governo.
Por isso, é tão importante a união dos clubes. Só assim, conseguirão melhorar as propostas sobre o mercado digital, que já é o presente e será ainda mais relevante financeiramente no futuro dessas agremiações e das transmissões esportivas. Considero o texto da MP ainda incipiente nesse tema.
No passado, o Clube dos 13, a Primeira Liga e a Futebol Brasil Associados (FBA, da Série B do Campeonato Brasileiro) fracassaram justamente pela falta do senso comum de trabalhar pelo coletivo dos clubes. Não dá mais para continuar errando.
Jogar para a galera das grandes torcidas do futebol dá Ibope no Brasil. Porém, no futuro não muito distante, pode significar, nesse caso específico, quebradeira e lamentos. Consequências claras da falta de consenso na hora de discutir a melhoria do negócio. Ao preferir o foco apenas nas individualidades, os clubes deixam nas mãos dos políticos o encaminhamento que deveria ser do futebol.

A sua análise, como sempre, foi perfeita. Os dirigentes dos clubes brasileiros têm uma grande dificuldade de se entenderem. Essa é uma questão que vai se arrastar por longo tempo.
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Perfeito. Acho inacreditável que o clubes continuem olhando seu próprio umbigo a esta altura do campeonato. O futebol brasileiro vem perdendo, cada vez mais, seu espaço no cenário mundial. Os dirigentes não conseguem tratá-lo com um negócio que pode ser, inclusive, muito lucrativo, se tivéssemos uma efetiva profissionalização na administração dos clubes. Nem coloco aqui as entidades, como Confederação e federações, pois, se os clubes quisesse, de verdade, se uniriam e tirariam os poderes destas instituições que só funcionam para atender a interesses políticos ou individuais.
Manter esta MP, escrita pelo Flamengo e aprovada a toque de caixa pelo Governo, só reforça o egoísmo e a total falta de empatia e espírito de grupo que esta turma vem demonstrando. Lamento profundamente.
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