Busacca defende VAR, quer chip para impedimentos, mas diz que é preciso cuidar para evitar tecnologia em excesso no futebol
BRASÍLIA. Há menos de três anos, o suíço Massimo Busacca tinha dúvidas se a chegada da tecnologia do árbitro assistente de vídeo (VAR, da sigla em inglês) daria certo e traria mais benefícios ao futebol. Hoje, o chefe de árbitros da Fifa afirma ter certeza de que a ferramenta é imprescindível. Em Brasília, para a Copa do Mundo Sub-17, onde acompanha diariamente o treinamento dos árbitros, assistentes, VARs e AVARs, no CT do Brasiliense, Busacca garante que as pesquisas continuam e que espera pelo desenvolvimento de um chip/bip capaz de acelerar a detecção de um jogador em posição de impedimento.
– O mais importante, nesse momento, é ter confiança na tecnologia. Você está fazendo esta entrevista com uma câmera, um telefone, mas não é mais importante do que você ter na cabeça as perguntas e saber o que perguntar. O fator humano é fundamental. Um chip com um bip para a confirmação mais rápida de impedimento para os assistentes ajudará muito, mas é preciso ter cuidado com mais e mais tecnologia. Não podemos correr o risco de transformar árbitros em robôs – defendeu o suíço, que chegou à Fifa em 2011, nesta entrevista concedida durante os treinamentos da última sexta-feira, na capital federal.

DE CAMAROTE: Na Copa do Mundo do ano passado, na Rússia, o senhor disse que o assistente que precisasse recorrer seis, sete vezes ao VAR, para erguer a bandeira antes de ter certeza de um impedimento, deveria procurar outra profissão para exercer. Temos notado em vários campeonatos e até mesmo aqui, na Copa do Mundo Sub-17, essa espera pelo VAR. Como o senhor avalia esse comportamento?
MASSIMO BUSACCA: “É claro que o tema do assistente, do bandeirinha, é um pouco complicado, porque agora temos o VAR, e com o VAR, o assistente não vai buscar o erro. Agora, é importante compreender quando ele tem a dúvida, saber esperar ou se é necessário levantar. Cada vez que tu esperas, o jogador corre sempre 20 metros, 30 metros, e isso, tampouco, é bom. O jogador diz: “levanta a bandeira de imediato, e eu paro”. Estamos numa fase em que temos de avaliar bem isso. A tecnologia (VAR) começou agora, há dois, três, quatro anos. Estamos numa fase de compreender e de como melhorar. Eu creio que no futuro se está trabalhando muito também para ter um chip, um bip, para quando o jogador estiver em impedimento, ele (o aparelho) vá te avisar. Isso, para mim, vai evitar que os assistentes parem muito o jogo. Se há um bip, é claro que ele (o assistente) pode levantar a bandeira um pouco mais rapidamente, e o jogador não correrá mais (em vão). Um gol é importante. Pode mudar uma Copa do Mundo. Eu prefiro que o assistente, agora, se tem dúvida por 20, 30 centímetros, é melhor esperar. Às vezes, um impedimento é configurado por um pé. Não há como o assistente ver. É complicado dizer: “não levante”. E se acontece o gol? Te matam, te cortam a cabeça. Tens a tecnologia e assistes a um erro? Estamos tentando compreender a maneira de mudar isso. Necessita tempo.
O senhor acredita que para a Copa do Mundo-2022 já vá existir uma outra tecnologia que possa ajudar o VAR a não despertar tantas dúvidas sobre interpretações e conceitos? E sobre a questão do bip ou chip, mencionada pelo senhor, é uma realidade, é uma questão distante, ou já está sendo desenvolvido?
BUSACCA: “Eu creio que, neste momento, o mais importante é ter confiança na tecnologia. A tecnologia chegou ao futebol depois de mais de 100 anos. E nos tem ajudado muito. Hoje, o futebol é muito rápido, há situações incríveis e há muito dinheiro. Uma jogada, um gol, pode mudar milhões. Eu creio que foi correta (a chegada da tecnologia). Eu tinha dúvidas, a princípio. Hoje, não. Estou convencido de que se o árbitro entende o futebol, sabe como estar posicionado, se trabalha e se prepara muito bem durante a semana, como o jogador, a tecnologia que temos hoje é suficiente. A tecnologia em excesso pode criar um risco de que, no futuro, não tenhamos árbitros, e, sim, tenhamos robôs em campo. Isso não é bom. Necessitamos de árbitros com personalidade, com compreensão do futebol, tudo isso é muito importante. Depois, se no futuro, vai chegar um chip, algo mais, para que seja um pouco mais rápida (alguma decisão), tudo bem. Mas não pensemos que a tecnologia tem que ajudar mais aos árbitros. Eu tenho medo. Os árbitros em campo têm que servir de exemplo para os árbitros mais jovens, que têm de recordar o nome do árbitro, e não o nome da máquina. Para mim isso é muito importante: defender o personagem árbitro, que entende o futebol. Nosso trabalho é dizer ao final de uma partida: “Obrigado, tecnologia! Eu fui melhor!”
Como o senhor avalia a atuação da arbitragem e do VAR nesta edição da Copa do Mundo Sub-17?
BUSACCA: “No geral, estamos muito contentes. Esse grupo de árbitros (que veio ao Brasil) é da nova geração. Não são árbitros que já trabalharam em grandes torneios. A maioria deles, é a primeira vez que vem a um torneio da Fifa. Por ser a primeira vez, vejo um grupo com muita fome de futebol, de aprender. Eu os vejo com muito potencial. É claro que quando se está em uma primeira experiência, até como um jogador, é preciso compreender onde se pode melhorar. Eu os vejo como árbitros muito humildes, que querem melhorar. E, sobretudo, com atuação em campo e com a ajuda da tecnologia, nós da Fifa estamos muito satisfeitos com o trabalho deles”.
O futebol está cada vez mais veloz, e a exigência física, cada vez maior. A preparação física do árbitro está se tornando mais importante do que a parte técnica?
BUSACCA: “Quando comecei na Fifa, em 2011, a primeira coisa que para mim era o mais importante era o aspecto físico. Claro, que (no aspecto) técnico, precisamos de árbitros que saibam de futebol e de arbitragem. Hoje, a parte física continua das mais importantes. Se você olhar o grupo que treina aqui, está quase perfeito. Controlamos a cada dia o que comem, o que bebem, tudo. O árbitro é um esportista. Hoje, o futebol é muito rápido. Introduzimos a tecnologia, que, muitas vezes, não é suficiente. O árbitro tem que estar perfeitamente posicionado. Claro que trabalhamos muito a parte física. Eu, pessoalmente, sou bem rígido nessa parte”.
Na final da Copa do Mundo-2018, na Rússia, o árbitro argentino Nestor Pitana foi chamado pelo VAR para verificar mão na bola dentro da área croata. Houve uma conferência de quase cinco minutos. A mim, pareceu que ele não queria marcar o pênalti a favor da França e que só o fez pela pressão do estádio lotado e do VAR. O senhor acha que ele apitaria aquele pênalti sem a pressão do VAR?
BUSACCA: “Não vou falar de Pitana, não vou falar da situação, porque não me parece correto. Já se falou muito disso. É muito importante para os árbitros e para o VAR ter claro o conceito de uma falta de mão (na bola). Quando o conceito é claro, quando há um movimento não natural, pondo um corpo maior, quando há todos esses elementos, o árbitro que está em campo tem que ver, tem que estar bem posicionado. Se não está bem posicionado ou não pôde ver, a intervenção do VAR é muito importante, quando há uma situação de dúvida. Se há a mão e o árbitro não viu, então, essa máquina aqui (aponta para o filter view), é uma invenção muito importante para nós. O VAR não está buscando uma decisão. O VAR não pode, porque é o árbitro que vive (a situação) no campo. Quando há uma interpretação, sempre o árbitro decide por último. E diz: “Obrigado pela informação. Dissestes que que a mão existiu, eu não a vi direito. Então, irei olhar o lance (no monitor)”. Ele vê, marca o pênalti, ou pode ser que não. É a outra possibilidade. “O.k. Obrigado. Eu vi assim no campo, e, para mim, não é pênalti”. E não muda a decisão. Isso é muito importante. Temos que saber, muito claramente, antes que todos, como interpretar uma falta de mão. Interpretar 100% a regra é impossível, mas precisamos ter o conceito. Quando se tem bem o conceito do VAR e do árbitro, será muito fácil. Aqui neste Mundial, tivemos falta de mão na bola e foi interpretada muito bem”.
A continuação da resposta de Massimo Busacca sobre mão na bola:
O senhor sabe quantos árbitros, assistentes e VARs vão estar na lista provisória de preparação para trabalhar na próxima Copa do Mundo-2022, no Catar? E quando sai a lista?
BUSACCA: “No fim do ano, depois de todos os torneios que organizamos, como o (Mundial) Sub-20 na Polônia, aqui no Sub-17, a Copa do Mundo de Clubes, em dezembro, no Catar, veremos o resultado de todos os candidatos que temos de todas as confederações (continentais), e vamos ter essa lista provisória para começar (a seleção). Um que esteja nessa lista, não garante que vá à Copa do Mundo (2022). Começaremos, e, depois, vamos ver a decisão final. É como um jogador, que começa bem uma partida, mas que não irá à Copa do Mundo. Não sabemos todavia quantos árbitros, assistentes e VARs vamos levar à Copa do Mundo. Temos a implementação do VAR. Eu creio que, mais ou menos, a lista será parecida com a que tivemos para a Rússia (em 2018). As seleções serão as mesmas 32. Creio que o número será parecido com o que tivemos na Rússia”.
