Alison dos Santos sobe ao pódio com sexta quebra de recorde sul-americano nos 400m com barreiras, em que norueguês Warholm pulveriza o mundial
TÓQUIO. Foram muitas as provas espetaculares que assisti desde Barcelona-1992, a primeira das oito edições de Olimpíadas que cobri. Hoje, no Estádio Olímpico de Tóquio, a sensação de um capítulo épico escrito nos 400m com barreiras me arrepiou e entrou para a relação, como o melhor desta prova em todos os tempos. Alison dos Santos, de apenas 21 anos, teve participação emocionante nessa história. Ganhou a medalha de bronze em 46s72. Foi mais de meio segundo melhor do que a marca anterior da carreira dele (47s31), estabelecida há apenas dois dias, na semifinal.
O paulista de São Joaquim da Barra teria sido ouro em qualquer edição de Olimpíadas passadas e na de hoje também, se não existissem dois desempenhos ainda mais espetaculares na final desta tarde, na capital japonesa.
O norueguês Karsten Warholm arrebatou a medalha de ouro, em incríveis 45s92. Pulverizou o recorde mundial que ele mesmo quebrara no último dia 1º de julho, na etapa de Oslo da Liga Diamante. E o americano Rai Benjamin garantiu a prata, com 46s17, a segunda melhor marca de todos os tempos. O quarto melhor tempo da história da prova foi justamente o de Alison, com 46s72, já que o terceiro continua sendo 46s70 do recorde mundial anterior de Karsten Warholm.
“Eu olhei pro placar (eletrônico) e pensei que estava em outra prova”, brincou Alison, em entrevista, logo após sair da pista.

A ficha foi caindo ao me lembrar que eu estava no Estádio Olímpico de Barcelona, quando o americano Kevin Young bateu o recorde mundial dos 400m com barreiras, em sensacionais 46s78. Antes da final desta tarde, aquele tempo permanecia como recorde olímpico. Hoje, neste 3 de agosto de 2021, quase 29 anos depois, os três medalhistas em Tóquio conseguiram melhorar aquele tempo colossal. Na ocasião, eu me lembro de Young, de 1,93m, ainda batendo na última barreira, o que o impediu de cruzar a linha, certamente, na casa de 46s50.
“Três atletas fazendo a prova mais forte da História, eu sendo parte disso. É histórico o que fizemos. É a segunda vez que literalmente vejo o recorde mundial ser quebrado na minha frente. A primeira foi na Diamond League (a Liga Diamante, em julho). Foi uma prova incrível. Quando eu passei a linha, sabia que tinha feito o meu melhor tempo. O que a gente fez hoje é histórico. Eles sangram como a gente, sofrem como a gente. Quem sabe um dia, a gente consegue chegar no recorde mundial”, disse o brasileiro Alison, na zona mista de entrevistas.
Alison dos Santos mede exatos 2,00m de altura. A estatura elevada é uma vantagem para os corredores dos 400m com barreiras, prova que requer velocidade, salto e resistência. A coordenação é fundamental para evitar choques com as barreiras e até quedas.
O brasileiro fez 21 anos há exatamente 2 meses, no dia 3 de junho, e atravessa uma temporada espetacular, chegando ao auge justamente na final olímpica. Em abril, ele bateu o recorde brasileiro, com 48s15.

Desde maio, quebrou seis vezes o recorde sul-americano. Fez 47s68, em 9 de maio, na Califórnia (EUA). Em 28 de maio, baixou para 47s57, em Doha (Catar). Em 1º de julho, correu em 47s38, em Oslo (Noruega), na prova em que Karsten Warholm havia quebrado o recorde mundial de Kevin Young. Três dias depois, em Estocolmo (Suécia), melhorou para 47s34. Na semifinal dos Jogos Olímpicos, no domingo, 1º de agosto, classificou-se para a final com 47s31. Hoje, tornou-se o primeiro latino-americano a correr abaixo dos 47 segundos.
Foi uma prova tão forte que seis dos oito participantes da final melhoraram as próprias marcas. Os 46s17 de Rai Benjamin são o recorde da América do Norte. Os 47s08 do quarto colocado Kyron McAster, a melhor marca das Ilhas Virgens Britânicas. Os 47s12 do catari Abdelrrahman Samba, a melhor dele em 2021. Os 47s81 de Yasmani Copello igualaram o recorde turco. E os 48s11 do estoniano Rasmus Magi, o novo melhor tempo de um competidor daquele país. Só o italiano Alessandro Sibilio (48s77) não conseguiu melhorar a marca pessoal, a do país ou da temporada dele.

Alison evoluiu muito no atletismo e o atletismo fez Alison evoluir como pessoa. Ele recordou hoje, na zona mista de entrevistas, que era tímido e não se sentia bem, com os cochichos e olhares, quando mais novo. Ainda bebê, de dez meses, sofreu um acidente doméstico com uma panela quente, que deixou marcas na cabeça e afetou o couro cabeludo.
“Hoje, o atletismo me fez ser uma pessoa diferente. Melhorar, me entender e me aceitar mais. Antes, eu tinha muita vergonha. Hoje, eu sei que faz parte da minha vida e que não tem razão para eu ter vergonha alguma. Faz parte de mim. Eu levo como orgulho, como batalha, como lutas que eu venci. Como eu falei há algum tempo atrás, eu só voltaria para casa, quando cumprisse a missão que me foi dada”, contou.
Na entrevista, Alison sempre usou o termo “a gente”, para se referir à conquista em Tóquio. Ele explicou quem é “a gente”:
” É a minha família, é o meu treinador, meus amigos, todos que estão comigo. É uma nação. Eu não corro só com o “Dos Santos”. Eu corro com o Brasil no peito. Represento um país, eles estão comigo. Não carrego como fardo, mas como pessoas que estão me puxando, me empurrando para querer ser melhor”.
Muitos atletas sentem a pressão olímpica, pioram marcas, mas Alison tem a maneira peculiar de encarar o desafio.
“Eu ouço música. Tenho uma teoria: em time que está ganhando, não se mexe. Fico xavecando o momento. Quanto mais xaveco o momento, mais leve a prova fica, melhor você fica. Não que a pressão não exista. Mas você não deixa ela tomar conta de você. Eu estava nervoso, estava com medo. Tinha o trabalho de outras pessoas que eu não poderia decepcionar. Eu não poderia deixar isso aflorar. Peguei pra mim e transformei em motivação”, descreveu.
Com o bronze assegurado, Alison já sabe como vai comemorar.
“A primeira coisa que eu vou fazer quando chegar no Brasil (depois de amanhã) é tomar a minha tubaína. Eu tô louco por ela”, encerrou, rindo, e arrancando gargalhadas dos jornalistas.
É um medalhista na pista e na vida.
