Ídolo aglomerado em cassino clandestino, técnico confrontando fiscais, jogadores amontoados em resort e federação querendo jogo a qualquer preço. O futebol se acha num planeta à parte
O futebol é, sem medo de errar, o maior produto do Brasil. Basta chegar em qualquer parte do mundo. Sempre haverá gente lembrando dos craques – mais do passado do que do presente, é verdade -, quando você se apresentar como brasileiro. Não raramente, quem reconhece o produto futebol do Brasil nem sabe qual é a capital do nosso país e tem dúvidas sobre em que continente fica. Já perdi a conta de quantas vezes experimentei esse momento em viagens por todos os cantos em 37 anos de jornalismo.
Por isso, eu vejo com decepção esse futebol de outro mundo nesses tempos sombrios de pandemia. Dia após dia, o Brasil supera recordes no número de mortos por Covid-19. E o futebol brasileiro, em vez de ser aliado na luta contra essa trágica história, tem promovido, quase diariamente, histórias de maus exemplos.
No fim de semana, foi o Gabigol, artilheiro e ídolo do Flamengo, aglomerado e detido em um cassino clandestino, na véspera de se reapresentar para os treinos no clube. Ontem, o vitorioso técnico – hoje coordenador técnico do São Paulo – Muricy Ramalho confrontou fiscais que o advertiram por estar sem máscara e caminhando numa praia fechada de Bertioga, no litoral paulista.
Semana passada, o atacante Jô e o meia Otero, dois nomes importantes do Corinthians, postaram fotos aglomerados num resort do interior paulista, no momento em que o clube pelo qual jogam vivia um surto de Covid-19.

Esses casos recentes se somam a dezenas de outros que já tomamos conhecimento pela imprensa. Não tem sido fácil pra ninguém ficar em casa, proteger-se ou mesmo sair para trabalhar.
O confronto, no entanto, revela o desdém que pessoas ilustres têm em relação às regras de combate a uma doença que já matou mais de 279 mil brasileiros em um ano. Tantas mortes desnecessárias parecem mera estatística na cabeça desses personagens.
O futebol de outro mundo se acha acima de tudo. No Brasil, é o que leva a Federação Paulista a querer mandar jogos do campeonato estadual para outros estados, a qualquer preço, tentando burlar a determinação do Governo de São Paulo de que o futebol precisa parar, pelo menos, por 15 dias.
O futebol deveria ser um catalisador de boas práticas. Lamentavelmente, tornou-se um fiel retrato do Brasil campeão mundial de mortes diárias por Covid-19.
