Com o isolamento social forçado, todo dia surge uma oportunidade de aprendizado, que não conseguia enxergar

Até o mundo do esporte parou, para tentar achatar a curva de desenvolvimento da Covid-19. Apenas nos campeonatos da Nicarágua e da Bielorrússia (perdoe-me por não aderir ao Belarus), a bola continua a rolar. Aqui no Rio de Janeiro, eu e colegas já sentimos saudades dos estaduais, que todos nós criticávamos há menos de um mês. Entramos na quarentena forçada. Sem Maracanã, tampouco jogos para cobrir ou assistir. Importante não adoecer de outras maneiras, no isolamento social.
Lembrei-me de um documentário que assisti, há alguns anos, sobre a “doença dos cosmonautas”. Homens confinados em estações espaciais, às vezes, por mais de dois anos, que precisavam se adaptar à microgravidade e se manter em movimento em ambientes apertados, para evitar adoecer e, assim, completar as missões.
Eles faziam atividades esportivas dentro das estações espaciais, em espaços bem menores dos que os das nossas casas. Mesmo diante da microgravidade, criavam malabarismos com bolas de futebol, entre outros apetrechos e passatempos, após o trabalho que executavam. Que melhor exemplo em tempos de confinamento?
Há quase 8 meses, eu me matriculei nas aulas de Pilates, três vezes por semana, pertinho de casa. Mudaram a minha vida. Eu, que adorava jogar peladas de futebol e futsal até os 40 e pouco anos, finalmente decidira abandonar a camisa de titular absoluto do Sedentário Esporte Clube.
O stress, a alimentação desbalanceada e a falta de exercícios me trouxeram problemas físicos e aumento de peso, nos últimos 5 anos. A partir de julho do ano passado, comecei a colher os frutos da atividade, com o sumiço das dores lombares e a perda de cinco quilos.
Tudo foi interrompido, de repente, pela pandemia.
O medo provocado pelo crescimento da doença me afastou da academia, no comecinho de março, antes mesmo do isolamento social. Pensei em desistir. Mas veio à mente, semana passada, a história dos cosmonautas, aliada à criatividade de quem precisa continuar trabalhando para sobreviver.
Minha professora de Pilates criou uma série de “aulões” ao vivo no Instagram. Foi além. Montou um grupo de WhatsApp, para fazer e enviar aos alunos pequenos vídeos, de 1m30s, no máximo, com exercícios e instruções. Também monitora, individualmente, os alunos para saber se foi sentida alguma dor ou se houve algum desconforto.
Não tem aquele calor do “ao vivo” na academia, mas é melhor do que voltar a padecer de alguma versão da “doença dos cosmonautas”, da qual eu já sofria, mas não sabia. De tanto acompanhar os vídeos, decidi voltar hoje às aulas.
As risadas e a positividade também me ajudam a encarar o momento. O humor prolonga a vida. Tenho tentado encarar a situação sem impaciência, para “encurtar” o tempo da quarentena. A leitura descortina os horizontes do conhecimento. Ler histórias positivas e rir com vídeos da Escolinha do Professor Raimundo e do Jô Soares também ganharam mais espaço na minha rotina.
Uma boa parte do dia é dedicada à apuração de notícias, conversas por telefone e WhatsApp com fontes de informação, em busca de novidades. O que vou descobrindo, compartilho com Produção e apresentadores do Fox Sports Brasil. Muita gente está em casa, mas não parou de trabalhar. Uma vez ou duas na semana, tenho participado de programas do canal, o que, mesmo de casa, envolve uma preparação específica para aquelas duas horas que me trazem imenso prazer. Trabalhar fazendo o que gosto é uma bênção que ainda recebo desde dezembro de 1983.
Sem jogos de futebol e eventos esportivos, paralisados e até adiados na tentativa de conter a disseminação da pandemia, minha participação em transmissões como comentarista está suspensa. A atividade, que começou com a assinatura do meu contrato com o Fox Sports Brasil, em fevereiro, é a mais prazerosa que tive profissionalmente nos últimos três anos.
Verdade que, sem os jogos, os ganhos caíram. Mas é melhor essa parada do que ficar doente. Se olhar pela metade vazia do copo, a quarentena, para mim, acabará se transformando em sentimento de prisão. Prefiro estar com saúde e me reinventar no trabalho e nas atividades a partir de casa. É a metade cheia do copo.
Nesses últimos dias, também me lembrei que tenho parentes e colegas, com quem não falava há algum tempo. Eu e eles sempre alegávamos falta de tempo para procurar as pessoas. Agora, o tempo sobra. Passei a dedicar uma hora do dia para telefonar a algumas pessoas, para saber se estão bem, como estão levando e relembrar algumas histórias boas, sem me deter ao tema do coronavírus. Felizmente, ninguém, até o momento, foi “pego” pela doença. Muita gente, é possível sentir, alegra-se, como eu, com aqueles minutos de atenção. A lista ainda é grande para “reencontrar”…
Poder apoiar os colaboradores também me alegra. Ninguém sabe por quanto tempo a crise vai durar. Tenho o sentimento de que irá muito além do 30 de abril e que teremos momentos ainda mais difíceis. Continuo pagando a senhora do transporte escolar do Pedro (de férias forçadas), as aulas agora virtuais da academia e ajudando as duas paróquias, de São Jorge e de São Pedro, santos dos quais sou devoto, para que também possam auxiliar os mais necessitados. No edifício onde moro, entramos em cota extra para antecipar as férias dos funcionários do grupo de risco da Covid-19.
Todos os dias, agradeço e peço a São Jorge, a São Pedro e ao anjo da guarda que continuem me abençoando com saúde e força para fazer a minha parte.
Esta semana, eu me descobri com tempo para jogar dominó, Uno e videogame com meu filho caçula, de 13 anos. Outra tarefa é estimular mais os processos de filmes, leituras e atividades dele na internet. O Pedro, que é autista, estuda numa escola construtivista, que o apoia e a nós, e passará a enviar exercícios e trabalhos adaptados para ele a partir do dia 6 (segunda-feira). Ele está gostando de aprender a cozinhar e adora ajudar a fazer pudim de leite. O último que fez, na terça-feira, ficou uma delícia.
Além do noticiário, também acompanho o trabalho dos colegas envolvidos na gigantesca cobertura do Covid-19 e do tema coronavírus, nos mais variados segmentos. Não é de hoje que a imprensa apanha. Apanhava com Lula e Dilma. Continua apanhando da militância do capitão Bolsonaro, que tem ojeriza a quem não faz o jornalismo chapa-branca, adorado pelos presidentes populistas que têm infestado o nosso país.
Felizmente, o bom jornalismo resiste. Assim como nós, à quarentena, que salva vidas.
