Entidade sorteia, nesta terça, eliminatórias da Copa-2022 e grupos de Libertadores e Sul-Americana
ASSUNÇÃO, Paraguai. Quatro anos e meio após a explosão do Caso Fifa, a Conmebol ainda busca se desvincular da imagem dos nomes responsáveis por um rombo de mais de US$ 200 milhões no futebol das Américas. O argentino Julio Grondona e o paraguaio Nicolás Leoz morreram sem terem devolvido um centavo das fortunas que construíram às custas de negociatas, malversação de fundos e recebimento de propinas, de acordo com as investigações de procuradores americanos. Mas a imagem deles associada à Conmebol é um desafio que a entidade tenta superar e mudar com a dificuldade das transformações.
Eleito em 26 de janeiro de 2016, praticamente oito meses depois da descoberta do Caso Fifa, o paraguaio Alejandro Dominguez trabalha para reconstruir a arruinada imagem da entidade sul-americana. A marca foi destruída no dia 27 de maio de 2015, quando a operação das justiças americana e suíça levou à prisão mais de uma dúzia de dirigentes e indiciou por crimes de lavagem de dinheiro, corrupção e formação de quadrilha 42 cartolas das Américas do Sul, Central, do Norte e do Caribe.
Entre os processados estão os três antecessores de Dominguez na presidência da Conmebol: os paraguaios Nicolás Leoz, que morreu em 28 de agosto deste ano, e Juan Angel Napout (condenado e cumprindo prisão nos EUA) e o uruguaio Eugenio Figueiredo. Praticamente toda a diretoria da Conmebol à época acabou varrida do cenário esportivo, por roubo e desvio de mais de US$ 200 milhões, entre 1991 e 2015.
O brasileiro Ricardo Teixeira, banido do futebol pela Fifa no último dia 29 de novembro, também foi indiciado pela Justiça americana, mas sem ter ido a julgamento. Pelas leis americanas, o ex-presidente da CBF só pode ser julgado nos Estados Unidos. Como não foi preso ou extraditado, continua livre, no Brasil.

Alejandro Dominguez assumiu a presidência da Conmebol a 26 de janeiro de 2016, pouco mais de um mês após Juan Ángel Napout ter sido preso na Suíça e extraditado para os Estados Unidos. Com a confederação em péssima situação administrativa e financeira, ele formou uma equipe de trabalho para crises e outra, para o futebol. A dinâmica foi trabalhar para administrar o caos, enquanto a sinergia tocava o futebol.
O braço direito e conselheiro de Dominguez é um empresário que fez fortuna nos ramos de telefonia celular e TV: Mario Zanotti, paraguaio radicado em Fort Lauderdale (EUA), foi nomeado Consultor Sênior de Transformação Corporativa da Conmebol, após ter se desligado do Grupo Tiggo/Millicom, do qual era CEO.
Zanotti aconselha Dominguez e o Conselho da Conmebol em áreas de transformação organizacional e estrutural. O objetivo dele é ajudar os dirigentes da instituição a concretizar projetos de modernização, transparência, eficiência e crescimento. Na visão de Zanotti, escrita por ele mesmo, no perfil que mantém na rede LinkedIn, “isso ajudará a liberar o enorme potencial que o futebol tem na região, profissionalizando a administração da CONMEBOL e de Associações que são membros, elevando e reposicionando o valor da marca em seus torneios e clubes”.
Zanotti é considerado o pai do projeto da final única das Copas Libertadores e Sul-Americana, após ter conduzido diversas reuniões com a Uefa, patrocinadores e partes interessadas nos projetos da Conmebol.
No prédio-sede da entidade, à beira da rodovia que liga o Aeroporto Internacional Silvio Petirossi à capital Assunção, os nomes dos dirigentes responsáveis pela roubalheira e também pela construção do edifício ainda continuam numa placa ao lado do hall de entrada. Relembram fantasmas do passado nefasto que quase levou à confederação à falência.
Para se ter ideia, o poder do argentino Julio Grondona (vice-presidente da Conmebol e também diretor financeiro da Fifa sem ter falado uma frase em inglês) era tamanho que o dirigente – falecido a 30 de julho de 2014 – influenciou até no projeto arquitetônico do hotel construído em frente à sede. Grondona pediu a construção no Paraguai ficasse parecida com a de uma outra rede de hotéis, que sediava, até então, todas as reuniões do antigo do Comitê Executivo da Conmebol, no famoso bairro de Puerto Madero, em Buenos Aires.
Nicolás Leoz, o paraguaio que presidiu a Conmebol de 1979 a 2013, tungou U$ 40 milhões dos cofres da entidade, que vem tentando reaver o dinheiro, junto às Justiças paraguaia e suíça. A sede, construída por ele há 17 anos, fica a menos de dois quilômetros do aeroporto, mas Leoz fazia questão de usar um helicóptero para levá-lo do edifício à pista, em clara ostentação. Trocar o heliponto por um campo de futebol na sede foi uma das medidas que Alejandro Dominguez tomou, construindo também um centro de imagens do VAR (árbitro assistente de vídeo) para treinamento dos juízes e bandeirinhas sul-americanos.
Dominguez defende que a Conmebol demonstrou ser vítima no Caso Fifa perante à Justiça americana. Depois de uma auditoria forense, a Justiça suíça congelou US$ 40 milhões do casal Leoz e do argentino Eduardo Deluca, ex-secretário-geral da Conmebol, também indiciado nos EUA e na Suíça. Há um processo de recuperação de fundos correndo também na Justiça paraguaia, onde a Conmebol não tem conseguido êxito.
Uma das estratégias de Dominguez e Zanotti é dar visibilidade à marca da Conmebol como organizadora de grandes eventos. Nesta terça-feira, a entidade traz a Assunção mais de mil convidados para três eventos, divididos ao longo do dia. Às 10h, no auditório do Hotel Bourbon, acontece o sorteio das eliminatórias sul-americanas da Copa do Mundo-2022, no Catar, a última a ser disputada por 32 seleções. À noite, a partir das 20h30m, é a vez dos sorteios dos grupos das Copas Libertadores e Sul-Americana-2020, no Centro de Convenções construído junto à sede.
Em novembro passado, Assunção sediou a Copa do Mundo de Beach Soccer, da Fifa, que também, pela primeira vez na história, vai promover, em março próximo, na capital paraguaia, uma reunião do Conselho, composto por 36 membros. Em novembro, a cidade também organizou a final única da Copa Sul-Americana, vencida pelo equatoriano Independiente del Valle.
Aumentar a importância da Copa América, que terá uma nova edição em junho e julho do ano que vem, com sedes na Argentina e na Colômbia, é outro objetivo de Alejandro Dominguez, que sonha contar com representantes de mais continentes, e não apenas da América do Sul e da Ásia, na edição seguinte, prevista para 2024.
Na véspera dos sorteios desta terça-feira, o Conselho da Conmebol se reuniu, no meio da tarde desta segunda-feira. Os membros voltaram atrás e decidiram não mais separar Brasil e Argentina com numeração exclusiva nas eliminatórias da Copa-2022. O sorteio será livre. Os dois gigantes poderão se enfrentar em qualquer rodada, até na primeira.
O Departamento de Competições de Clubes propôs as datas de 12 e 19 de fevereiro para as finais da Recopa Sul-Americana, entre Flamengo (campeão da Libertadores) e Independiente del Valle (campeão da Sul-Americana), mas CBF e Federação Equatoriana não aceitaram, por incompatibilidade nos calendários nacionais. Nova discussão acontece nesta terça, entre os diretores de Competições da Conmebol, da CBF e da Federação Equatoriana, para buscar um acordo. Segundo Manoel Flores, da CBF, a final da Recopa Sul-Americana em jogo único foi descartada.
No sorteio das eliminatórias sul-americanas da Copa do Mundo-2022, marcado para as 10h desta terça-feira e com duração de apenas 14 minutos, a seleção brasileira conhecerá a ordem de seus 18 jogos, entre março de 2020 e novembro de 2021. Oito rodadas estão reservadas para o ano que vem: a 26 e 31 de março, 3 e 8 de setembro, 8 e 13 de outubro e 12 e 17 de novembro, além de duas (entre 4 e 9 de junho) para amistosos preparatórios para a Copa América (12 de junho a 12 de julho, na Argentina e na Colômbia). A data de 8 de setembro (uma terça-feira) é apenas dois dias antes da primeira partida da final da Copa do Brasil-2020.
Já o sorteio dos grupos das Copas Libertadores e Sul-Americana, marcado para começar às 20h30m, no Centro de Convenções da Conmebol, vizinho à sede, é um evento mais complexo, com cerca de uma hora de duração. O atual campeão Flamengo é um dos três clubes brasileiros designados como cabeça-de-chave, no pote 1 do sorteio, juntamente com Grêmio e Palmeiras. Os outros cabeças do primeiro pote são os argentinos Boca Juniors e River Plate, o paraguaio Olímpia e os uruguaios Nacional e Peñarol. São Paulo e Santos ficam no pote 2, enquanto o Athletico Paranaense está no 3. Corinthians e Internacional aparecem no pote 1 da fase prévia.
