Ser campeão: um sonho para realizar em memória da mãe

Herói da classificação mexicana para a final, goleiro García supera trauma e transborda fé na conquista

BRASÍLIA. Eduardo García escancara o sorriso não apenas quando responde sobre a façanha de ter defendido três cobranças de pênaltis batidas pelos holandeses Taabouni, Braaf e Regeer na semifinal da Copa do Mundo Sub-17. O goleiro do Chivas Guadalajara é apontado por Marco Ruiz, o técnico da seleção, como o melhor da posição na competição. Recordando a campanha da Mini El Tri em seis jogos neste Mundial e as defesas difíceis de García, é fácil concordar que o treinador não joga confetes em vão. O rapaz de 17 anos sofreu apenas três gols e superou momentos difíceis na vida, como a perda da mãe, há pouco mais de dois anos.

– García é um rapaz que teve de superar uma história muito difícil para estar aqui e merece todo o nosso apoio e a nossa confiança. É um grande goleiro e também uma pessoa humilde e com grande força interior para realizar seus objetivos – elogiou o treinador da seleção mexicana.

Se a decisão for por pênaltis, García promete pegar (Foto: Jorge Luiz Rodrigues)

No empate sem gol na estreia contra o Paraguai, García fez duas grandes defesas, evitando a derrota. Na rodada seguinte, a Itália só conseguiu o gol da vitória por 2 a 1 no último minuto, depois de uma pressão intensa em que García evitou o pior. Nas oitavas de final, diante do Japão, e nas quartas, contra a Coreia do Sul, o goleiro mexicano, de 1,78m, brilhou nos momentos em que os adversários mais pressionaram.

Domingo, contra o Brasil, a partir das 19h, no Estádio Bezerrão, Eduardo García espera que o México ganhe no tempo normal, mas, com o contagiante sorriso, não se faz de rogado quando perguntado sobre uma possível decisão por pênaltis, em caso de empate nos 90 minutos.

– Vou agarrar os que sejam necessários! – emendou, em entrevista ao “De Camarote”, no hotel da seleção mexicana em Brasília, no início da noite de sexta-feira – um dia após o triunfo sobre a Holanda, na semifinal.

DE CAMAROTE: O técnico Marco Ruiz rasgou elogios à sua atuação nesta Copa do Mundo e membros do Grupo de Estudos Técnicos da Fifa que analisam o Mundial também o consideram um dos melhores da competição. Você esperava?

EDUARDO GARCÍA: “É um sonho, primeiro por jogar o Mundial. E também é um sonho, quando começam a te catalogar como um dos melhores goleiros do Mundial. É um objetivo que tenho desde muito antes (do Mundial) e que, em conjunto com meus companheiros e com o departamento de goleiros (da Federação Mexicana), temos conseguido”.

García, candidato a melhor goleiro do Mundial (Imagens: Jorge Luiz Rodrigues)

Quando Efraín González perdeu a primeira cobrança de pênalti, com uma cavadinha malsucedida, você ficou nervoso?

EDUARDO GARCÍA: “Apesar daquela falha, eu estava seguro de que iríamos ganhar. E também estava seguro de que tínhamos os méritos suficientes para chegar à final. Quando peguei a última cobrança, eu me emocionei. Mas aí o árbitro veio me dizer para aguardar. Eu pensei: como assim? Mas aí vieram todos os companheiros me abraçar, e o resultado estava confirmado”.

O técnico Marco Ruiz disse na entrevista coletiva após o jogo com a Holanda que você, apesar de jovem, já havia superado muitas coisas na vida, entre as quais, uma perda enorme. E que você iria dedicar um possível título mundial a alguém. Você se sente confortável para falar sobre isso e sobre quem seria esse alguém?

EDUARDO GARCÍA: “Foi sobre a minha mãe, há dois anos e três meses, mais ou menos. A princípio, me doeu muito. Mas entendi que se não estou mais com ela, eu vivo por ela. Sempre, em cada partida, eu penso nela. É um pulmão extra, é uma grande motivação. Meu pai e minha família me apoiam e me apoiaram muito. Também dedicarei a eles”.

Você imaginava, no início da Copa do Mundo Sub-17, que o México pudesse chegar tão longe?

EDUARDO GARCÍA: “Se eu te conto a minha experiência desde pequenino, desde 4 anos, quando me lembro das coisas, eu sinceramente não me imaginava onde estou agora. Porém, uma vez que vou crescendo, vou me dando conta do que somos capazes de conseguir. Uma vez que foi formada a seleção e que viemos ao Mundial, nós entendemos que estávamos aqui para coisas boas, e, agora, estamos numa final, onde visualizamos ganhando-a aqui”.

O goleiro diz que o México chegou à final para ganhar (Imagens: Jorge Luiz Rodrigues)

O que você imagina sobre a partida de domingo com o Brasil, anfitrião que vai tentar ganhar seu quarto título mundial sub-17?

EDUARDO GARCÍA: “Eu imagino uma partida muito linda. E o que todos nós mexicanos imaginamos como o melhor é que será contra o Brasil, aqui no Brasil. Vai ser uma partida muita boa. Acredito que vamos viver o melhor neste campeonato no domingo”.

Você está no Chivas Guadalajara desde os 10 anos e já ganhou um bicampeonato mexicano da Liga MX na categoria sub-13. Há ou houve algum goleiro no qual você se espelhou desde pequeno?

EDUARDO GARCÍA: “Desde pequenino, eu olhava muito na Europa o (holandês) Van der Saar. Fui crescendo e observando vários arqueiros, como os mexicanos Jesús Corona e Luis Michel. Hoje, admiro muito Jesús Corona e (o esloveno) Jan Oblak (do Atlético de Madrid)”.

Algum jogador brasileiro de linha que você admira?

EDUARDO GARCÍA: “Neymar, por tudo o que conseguiu e por onde chegou no futebol. Do passado, Ronaldo (Fenômeno), pelos tipos de gol que marcava e pelo estilo de jogador que foi”.

Você citou dois jogadores de linha com muitos recursos técnicos e que foram pesadelos para goleiros, como você. É esse estilo de atacante que você considera mais perigoso?

EDUARDO GARCIA: “Para mim, não há o mais difícil. Vejo todos os atacantes e centroavantes por igual, e não um estilo especial como o mais perigoso”.

Os clubes mexicanos costumam não dar tanta oportunidade aos jovens jogadores como você. O que você espera do futuro?

EDUARDO GARCÍA: “Tenho planos de me destacar na história do futebol mexicano e sinto que posso conseguir esse objetivo. Será com muito trabalho, com muito esforço e sendo firme mentalmente”.

Do outro lado, na sua posição, o Brasil tem o goleiro Matheus Donelli. O que você acha dele?

EDUARDO GARCÍA: “Penso que é um bom goleiro. Será um bom duelo”.

Domingo, se houver uma nova decisão por pênaltis, o que você acha que pode acontecer?

EDUARDO GARCÍA (rindo): “Vou agarrar os que sejam necessários!”