Seleção leva dois gols em 13 minutos, mas vira o jogo no 2º tempo com a alma na chuteira
BRASÍLIA. Havia no caminho a França, que parecia confirmar não apenas ter o melhor ataque e a defesa menos vazada da Copa do Mundo Sub-17, mas também o conjunto mais homogêneo. Cirúrgicos, em apenas 13 minutos do primeiro tempo, Les Bleuets (Os Azuiszinhos) mostraram futebol de gente grande e fizeram 2 a 0. Não contavam com a virada extraordinária dos brasileiros. Com a alma na ponta da chuteira, a seleção transformou uma derrota contundente em vitória retumbante nos 45 minutos finais e se classificou para a decisão do título, com o inesquecível 3 a 2, no Bezerrão, na noite desta quinta-feira.
Com o resultado, Brasil e México (que bateu a favorita Holanda nos pênaltis por 4 a 3, depois do empate de 1 a 1 nos 90 minutos) vão decidir o troféu da Copa do Mundo Sub-17, domingo, às 19h, também no Bezerrão. França e Holanda se enfrentarão pelo terceiro lugar, na preliminar, às 15h.
Os dois primeiros gols franceses em 13 minutos comprovaram o acerto das escolhas do técnico Jean-Claude Giuntini. Depois de ter arrasado a Espanha (6 a 1) nas quartas de final, segunda-feira passada, em Goiânia, o treinador tinha uma substituição obrigatória a fazer para a semifinal, por causa do segundo cartão amarelo recebido pelo capitão e cabeça-de-área Agoume. Giuntini escolheu Millot, do Monaco, e promoveu o craque Aouchiche a capitão. Não parou por aí. Trocou a força física e o jogo aéreo do centroavante Rutter pela velocidade e a habilidade do atacante Kalimuendo-Muinga. O objetivo foi explorar uma das deficiências mais claras do Brasil: a lentidão da dupla de zaga Henri/Luan Patrick.

Logo aos sete minutos, a opção se mostrou acertada, quando Kalimuendo-Muinga ganhou a corrida com os zagueiros e chutou cruzado e rasteiro para superar Matheus Donelli: França 1 a 0.
O segundo gol saiu apenas sete minutos depois. Mbuku tabelou com o lateral-esquerdo Pembele, tocou por entre as pernas de Henri e chutou cruzado, por entre as pernas de Matheus Donelli: 2 a 0, aos 13 minutos.
Inexplicavelmente, a França recuou contra um adversário grogue e que parecia à beira do nocaute. O Brasil passou a atacar e propôs o jogo, mas continuou falhando na transição ofensiva. Os erros de passes dificultavam a criação de jogadas, com Pedro Lucas (do Grêmio) e Peglow (do Internacional) errando muito no fundamento e obrigando Kaio Jorge (do Santos) a buscar jogo.
Veron (do Palmeiras) trocou de lado com Peglow e passou a atacar pela esquerda, aos 32 minutos. E o Brasil cresceu com a aproximação do lateral-direito Yan Couto. Num desses lances de ultrapassagem, o jogador do Coritiba recebeu o lançamento e foi derrubado na área por Pembele, aos 44 minutos. O árbitro salvadorenho Ivan Bartón marcou pênalti, mas foi chamado pelo VAR para revisar o lance e acabou anulando a marcação, para revolta da torcida.
No segundo tempo, as equipes voltaram com as mesmas formações, mas o paciência do técnico Guilherme Dalla Déa com os erros de Pedro Lucas acabou aos 11 minutos. O apoiador saiu para a entrada do lateral-direito reserva Garcia (do Palmeiras), o que liberou Yan Couto para jogar na ponta-direita. Com isso, Veron passou para a ponta-esquerda e Peglow saiu daquela posição para o meio.
A seleção cresceu e conseguiu diminuir aos 17 minutos. Após a cobrança de escanteio de Peglow, o zagueiro Henri (Palmeiras) pegou o rebote de cabeça e Kaio Jorge, também de cabeça, marcou o primeiro gol do Brasil.

A pressão continuou, e o técnico francês Giuntini mudou o time, trocando o atacante Kalimuendo-Muinga pelo apoiador Lepenant, aos 22. Com a entrada de Lázaro, do Flamengo, no lugar de Diego Rosa, do Grêmio, aos 25 minutos, o Brasil cresceu ainda mais em volume de jogo e chegou ao empate, aos 31, em jogada que simbolizou a alma da equipe. O cabeça-de-área Daniel Cabral (do Flamengo) fez uma arrancada espetacular pela ponta-esquerda, ganhou na corrida de Soppy e cruzou para a área, para a conclusão de Veron: 2 a 2 que levou a loucura o Bezerrão.
A troca feita por Guilherme Dalla Déa, que tirara Yan Couto por Lázaro, mostraria ainda que o jogador do Flamengo estava abençoado para se tornar herói.
– No intervalo, eu disse ao Lázaro e ao Matheus Araújo (do Corinthians) que um deles entraria no segundo tempo para nos fazer ganhar o jogo. Eu ajustei o que estávamos errando, e, depois, chamei pelo emocional dos jogadores. Disse a eles que precisávamos de um gol. Um gol para renascer no jogo. Depois, aí pensaríamos nos outros gols. O emocional desta equipe é muito forte, numa categoria sujeita a tantos altos e baixos. Ganhamos com alma – explicou, depois do jogo, o treinador brasileiro.
Com o empate, a França saiu para tentar atacar, mas a pressão brasileira continuava. Les Bleuets ainda tiveram um gol bem anulado, aos 41 do segundo tempo, com Lihadji em impedimento.
A virada brasileira se materializou aos 44. Após a revisão do lance de impedimento francês pelo VAR, a cobrança, feita com um chutão do goleiro Matheus Donelli, encontrou Lázaro, que driblou Soppy e chutou no canto direito de Zinga: 3 a 2 épico no Bezerrão, tomado pela festa de mais de 13 mil torcedores.
– Quando o professor me falou que eu poderia entrar, fiquei confiante. A chance veio e fui abençoado, não deixando passar a oportunidade. Foi bom demais – avaliou Lázaro.
Depois da partida, os jogadores brasileiros ficaram cerca de 15 minutos em campo, festejando com os torcedores, que continuavam no estádio. Agradeceram o apoio, mesmo virando o primeiro tempo com 2 a 0 contra.
– A torcida foi maravilhosa. O time jogou com alma, com garra. Felizmente, temos o nosso pulmãozinho, que é o Daniel Cabral. Ele corre por tudo mundo – elogiou Kaio Jorge, autor do primeiro gol.
O elogiado agradeceu também aos céus.
– Papai do Céu me deu esse pulmão e essa capacidade física, mas sem esse grupo unido, nada disso estaria acontecendo. Vamos buscar esse título para coroar tudo isso – devolveu Daniel Cabral.
O técnico Guilherme Dalla Déa não se esqueceu de um ausente:
– Prometi ao Talles Magno que eu o traria de volta para assistir à final, se nós nos classificássemos. Conseguimos, e quero cumprir a promessa. A CBF vai pedir ao Vasco a liberação do Talles para vir aqui a Brasília no domingo. Em todas as preleções, sempre coloco a camisa dele com o grupo, para que não nos esqueçamos de um jogador que só nos deixou por lesão. Ele faz parte do grupo e tem que estar conosco nesse dia especial em que vamos buscar o título – justificou o treinador, na entrevista coletiva.
BRASIL: Matheus Donelli – Yan Couto (Sandry, aos 38 do 2º tempo), Henri, Luan Patrick e Patryck – Daniel Cabral – Diego Rosa (Lázaro, aos 25 do 2º tempo), Veron, Pedro Lucas (Garcia, aos 11 do 2º tempo) e Peglow – Kaio Jorge. Técnico: Guilherme Dalla Déa. FRANÇA: Zinga – Soppy, Kouassi, Matsima e Pembele – Ahmada, Millot (Hassan, aos 30 do 2º tempo) e Aouchiche – Lihadji, Mbuku e Kalimuendo-Muinga (Lepenant, aos 22 do 2º tempo). Técnico: Jean-Claude Giuntini. Árbitro: Ivan Barton (El Salvador). Cartão amarelo: Matsima, Soppy, Daniel Cabral e Lázaro. Público: 13.587 presentes.
Na preliminar, a Holanda começou melhor, mesmo com as ausências do capitão Kenneth Taylor, com virose e febre, e do zagueiro Ki-Jana Hoever, suspenso por dois cartões amarelos. Aos 15, o atacante Unuvar quase surpreendeu com uma cabeçada no canto direito do goleiro mexicano García, que espalmou.
O México fez a primeira substituição logo aos 17, quando o lateral Ruiz sentiu lesão muscular e saiu de maca. Lara entrou no lugar dele.
Dois minutos depois, El Mini Tri teve a primeira oportunidade, com Muñoz escorando de chapa o cruzamento de El-Mesmari, para a defesa do goleiro Raatsie.
A Holanda ainda teve um gol, bem anulado pelo árbitro, sem ajuda do VAR, aos 27 minutos, quando o atacante Unuvar acertou o corpo do goleiro García na pequena área antes de cabecear a bola para o fundo do gol.
Aos 37, Braaf perdeu a chance mais clara do jogo até então, ao chutar para fora, de frente para o goleiro García, após receber um passe de Taabouni dentro da grande área. Os holandeses não conseguiram transformar em gol a maior posse de bola (65% contra 35%).
O técnico mexicano Marco Ruiz fez a segunda alteração no intervalo. Tirou o meia El-Mesmari, do Pachuca, com atuação surpreendentemente apagada, e colocou Joel Gómez, do Querétaro.
O jogo continuou morno até aos 12 minutos, quando um contra-ataque foi muito bem-construído para Hansen, que cruzou na área, onde havia três atacantes holandeses contra apenas um zagueiro e o goleiro mexicanos. Regeer recebeu livre, mas, sem jeito de artilheiro, mandou a bola na arquibancada.
O bombardeio continuou, aos 23 e aos 24 minutos: primeiro com Regeer, que acertou o travessão; depois, com a cabeçada do artilheiro Hansen, livre, para fora, após cruzamento de Unuvar.
Aos 27 minutos, Braaf recebeu livre, mas chutou em cima do goleiro García. Um minuto depois, enfim, saiu o gol. O zagueiro Bogarde (do Hoffenheim, da Alemanha) evitou a saída da bola pela lateral, passou por Alejandro Gómez e cruzou rasteiro para Regeer (do Ajax) tocar, entre três zagueiros, para o fundo do gol, aos 28 minutos.
Uma bobeada de Regeer, cinco minutos depois, iniciou a jogada na qual o México chegou ao empate. O meia errou o passe e o atacante Bryan González avançou até ser derrubado por Rensch na entrada da área. O atacante Efraín González – que entrara aos 27 no lugar de Luna, bateu com categoria no canto direito de Raatsie e empatou, aos 33. Foi o quarto gol de González, do Los Angeles Galaxy (EUA), no Mundial.
Pela 1ª vez em 13 jogos de mata-mata desta Copa do Mundo Sub-17, tivemos decisão por pênaltis, após o empate de 1 a 1 nos 90 minutos. García, o goleiro mexicano, foi o herói ao defender três cobranças.
As sequências de cobranças: Efraín González bateu de cavadinha e o goleiro Raatsie pegou no centro do gol; Maatsen fez Holanda 1 a 0; Muñoz marcou México 1 a 1; Unuvar fez Holanda 2 a 1; Alejandro Gómez empatou em 2 a 2; Taabouni chutou e García espalmou, mantendo 2 a 2; Pizzuto virou México 3 a 2; Braaf chutou e García espalmou novamente; Joel Gómez chutou e Raatsie espalmou, com a bola batendo na trave e não entrando. Hansen empatou 3 a 3; Guzmán pôs o México em vantagem de 4 a 3; e Regeer chutou e García espalmou pela terceira vez, garantindo o México na final de domingo.
MÉXICO: García – Guzmán, Alejandro Gómez e Rafael Martínez – Ruiz (Lara, aos 17 do 1º), Pizzuto, Josué Martínez, El-Mesmari (Joel Gómez, no intervalo) e Bryan González – Luna e Muñoz. Técnico: Marco Ruiz. HOLANDA: Raatsie – Van der Sloot, Bogarde, Rensch e Salah Eddine – Regeer, Hansen e Maatsen – Taabouni, Braaf e Unuvar. Técnico: Peter van der Veen. Árbitro: Guillermo Guerrero (Equador).
