Daniel Cabral lembra tragédia de fevereiro e quer título mundial sub-17 para homenagear dez mortos
BRASÍLIA. O incêndio no CT do Flamengo sumiu do noticiário, mas não da cabeça de Daniel Cabral, um dos destaques da seleção brasileira sub-17 na Copa do Mundo, juntamente com os atacantes Veron e Talles Magno. As atuações do cabeça-de-área do Flamengo chamam a atenção pela técnica, saída de jogo, chutes de fora de área e vontade em campo. O jeito guerreiro é um estilo novo do jovem de 17 anos. Tem relação com a triste e difícil lembrança do incêndio, no Ninho do Urubu, que matou dez jogadores e feriu outros três, no dia 8 de fevereiro deste ano.
Daniel Cabral era muito amigo de Rykelmo Viana, de 16 anos, o último dos dez mortos a ter o corpo carbonizado identificado no Instituto Médico Legal do Rio de Janeiro. Foram dias de sofrimento para o jogador da seleção brasileira, por causa da perda do amigo e de outros nove companheiros.

Batizado Rykelmo em homenagem ao craque argentino Riquelme, o amigo falecido era natural de Limeira (SP). Como não tinha família por perto no Rio de Janeiro, a casa dos pais de Daniel Cabral se tornou a segunda do jovem paulista.
– Eu era muito amigo do Rykelmo e dos meninos. Não tem como esquecer. Foi um momento muito complicado para todos. Para mim, principalmente, o Rykelmo era um grande irmão meu. Ele morava longe; então, passava os fins de semana lá em casa. Foi muito ruim a perda dele. Fico feliz por estar hoje na seleção, podendo representá-lo, porque era um sonho dele também – recordou Daniel Cabral, após o treino da seleção, nesta segunda-feira, no Estádio Abadião, em Ceilândia (DF).
Fico muito triste por ele ter partido, mas agora não corro só por mim. Corro pelo Rykelmo, pela família dele e pelos sonhos de todos os dez que se foram e que, infelizmente, não estão podendo correr atrás dos seus próprios sonhos
Daniel Cabral, jogador da seleção brasileira sub-17
Para homenagear Rykelmo, Daniel Cabral escreveu o nome do amigo falecido na chuteira e incorporou o estilo mais aguerrido dele.
– Na minha chuteira, tenho o nome do Rykelmo e sempre carrego ele comigo no meu coração e nos meus pensamentos. Tento levar um pouco do futebol dele pra dentro de campo, que era um futebol aguerrido. Tento representar ele sempre. E se a gente for campeão, com certeza, vou dedicar o título a ele – explicou Daniel Cabral.
O Brasil vai enfrentar o Chile nesta quarta-feira, às 20h, no Estádio Bezerrão, na cidade-satélite do Gama, em Brasília, pelas oitavas de final. Mais uma vez, Rykelmo e os nove amigos mortos vão entrar em campo simbolizados por Daniel Cabral, que faz da lembrança uma força positiva.
– Com certeza vai ser um jogo muito difícil. mas temos feito boas atuações e muitos gols. Então, a gente vem muito confiante e espera continuar vencendo para continuar esse trabalho – avaliou o camisa 5 da seleção.
Brasil e Chile fazem campanhas antagônicas neste Mundial e também completamente diferentes do Sul-Americano, disputado em abril, no Peru, quando os brasileiros sequer conseguiram passar da primeira fase, enquanto os chilenos terminaram vice-campeões.
– Acho que o retrospecto não pesa. Nem mesmo do Mundial. É um momento diferente da competição. Agora, com mata-mata. Espero que a gente dê sequência ao nosso bom momento – avaliou.
Outra característica de Daniel Cabral é a paixão pelo pagode. Ele puxa as “rodas” no ônibus da seleção, nos trajetos para os jogos. Segundo o cabeça-de-área, é uma maneira de descontrair o ambiente antes das partidas.
– Antes do jogo, a gente faz uma resenha, tem os nossos instrumentos. Eu não sei tocar nada. Toco só na voz – contou, gargalhando. – O gosto pelo pagode é um pouquinho da minha raiz (na Baixada Fluminense). O pessoal (de lá) gosta muito, os meus familiares também. E o futebol, também. Jogador que não gosta de pagode, acho que não existe.
Daniel Cabral começou a jogar bola aos quatro anos. O pai o pôs numa escolinha. Atuou em campeonatos regionais de crianças. Teve convite para fazer um teste no Flamengo, aos sete. Passou e começou a jogar futsal no próprio rubro-negro. Aos dez, foi da quadra para o campo e iniciou a carreira, que, sete anos depois, valeu a convocação para a Copa do Mundo Sub-17.
– Eu trouxe um pouquinho dessa característica (de infiltrar, sair jogando e tocar) do futsal, mas acho que é um dom de Deus. Papai do Céu me abençoou com esse dom, e eu estou podendo fazer boas atuações e ajudar minha equipe a vencer, que é o principal – recordou.
A referência de Daniel Cabral no futebol é outro cabeça-de-área: Casemiro, do Real Madrid e da seleção brasileira. Têm estilos parecidos?
– Eu me inspiro no Casemiro. Acho que sou um pouquinho parecido com ele. Igual, não, porque ele está acima de mim, ainda (risos). Estou começando agora e espero que um dia eu possa alcançar o mesmo patamar dele.
Com Rykelmo na cabeça e o pagode na voz, Daniel Cabral diz que ainda não pensou na trilha sonora para o caso de o Brasil ganhar o quarto título mundial sub-17 do país – e o primeiro em casa.
– Ainda não pensei na trilha, mas vou começar a pensar – emendou, soltando a vozeirão, como nas rodas de pagode da garotada sub-17.

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