Sonhos feitos para serem realizados

Razões de um veterano jornalista inglês me motivaram a cobrir a Copa do Mundo Sub-17 no Brasil

Talles Magno dribla um marcador no treino da seleção brasileira sub-17
(Foto: Alexandre Loureiro/CBF)

Foi numa fila de retirada de ingressos para a tribuna de imprensa do estádio de Dortmund, três horas antes de a bola rolar para Brasil x Gana, pelas oitavas de final da Copa do Mundo-2006, na Alemanha, que eu me deparei com aquele senhor, na época, já com setenta e tantos anos. Olhei para a credencial e o nome não me deixava enganar: Paul Gardner.

O veteraníssimo colunista da revista inglesa “World Soccer” estava ali diante de mim. Não pestanejei. “Todos os meses, adoro ler suas colunas. Mas existe uma que não me sai da cabeça: aquela em que escreveu que o campeonato organizado pela Fifa mais apreciado pelo senhor é a Copa do Mundo Sub-17. Por quê?”, perguntei.

Gardner, inglês de nascimento e farmacêutico de formação, antes de se tornar jornalista, cobriu 9 Copas do Mundo e outras 10 Sub-17. A resposta dele foi imediata:

-É o campeonato mais puro que existe no futebol. Os jogadores ainda são acessíveis. Dá para contar histórias ótimas. Fui a todas, desde a primeira, em 1985, quando ainda era Sub-16 – respondeu ele, antes de se despedir.

Nunca mais eu encontrei Paul Gardner, hoje com 89 anos e ainda em atividade na revista, da qual continuo assinante. Mas aquele depoimento dele despertou em mim a curiosidade que demorei 13 anos para concretizar.

Aqui estou, na cidade-satélite do Gama, no Distrito Federal, distante quase 40 quilômetros de Brasília. Vim acompanhar e escrever sobre a 18ª edição da Copa do Mundo Sub-17 da Fifa, que começará neste sábado, com Brasil x Canadá, no Estádio Bezerrão. É a minha primeira vez neste evento, que me trouxe recordações dos tempos de “foca”, o jornalista recém-iniciado na profissão.

O sonho que eu tinha, desde aquela conversa com Paul Gardner, há 13 anos, era contar histórias e vivenciar esse ambiente diferente. Tão diferente que a minha primeira experiência diante de Talles Magno, o mais badalado jogador desta seleção brasileira, foi um misto de admiração e perplexidade, na tarde desta quinta-feira.

A entrada dos jornalistas para o local onde ficaríamos, à beira do campo do Estádio Abadião, em Ceilândia, onde a seleção treinou, passava ao lado do vestiário dos jogadores. Ao cruzar com Talles Magno, o garoto olhou para mim, estendeu a mão direta e emendou, com um sorriso: “Muito prazer!”.

Na mesma hora em que o prazer também se tornou meu, eu me lembrei do Paul Gardner. Não sei se ele virá ao Brasil, mas adoraria se ele soubesse que as histórias e as razões que o levaram a cobrir dez edições da Copa do Mundo Sub-17 ainda permanecem acalentando sonhos feitos para nós realizarmos.

Quis contar essa história como a primeira deste novo espaço, que hoje estou estreando, para escrever, comentar e discutir histórias e temas do futebol e dos esportes olímpicos.

Sim, porque no futebol pasteurizado pelos milhões de hoje em dia, com tantas regras criadas por clubes e seleções para o trabalho da imprensa, o distanciamento ainda é algo pouco comum no Mundial Sub-17.

Que seja uma Copa do Mundo Sub-17 repleta de futebol encantador, personagens adoráveis para retratar e, claro, dessas singelezas capazes de encantar à beira do campo.

14 comentários

  1. caramba, Jorge… enviei para o JBr (nem sei se será publicada por questões de espaço) minha coluna de sábado falando justamente sobre o ostracismo que marca o Mundial, sem os holofotes da mídia, e encerrando com a frase que “estou fazendo minha parte” na divulgação e na presença… será muito bom estar a seu lado, lembrando uns trinta e poucos anos atrás que meus olhos brilharam ouvindo suas histórias, eu então ainda estudante

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  2. Excelente texto, Jorge! Muito bacana essa história. Pode ter certeza que serei um dos leitores do seu blog.
    Vivenciei algo parecido nos Jogos Olímpicos da Juventude, em Cingapura em 2010, e Nanquim em 2014, ambos pelo jornal Lance! Foi um privilégio ver ali garotos e garotas que, anos depois, tornaram-se renomados atletas olímpicos, como Isaquias Queiroz, Thiago Braz, e também de outros paises, como o nadador sul-africano Chad le Clos.
    Neste aspecto, a Copa do Mundo Sub-17 e os Jogos Olímpicos da Juventude são bem parecidos.
    Grande abraço!

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  3. Que maravilha, Jorge. Talvez em uma competição como essa a gente reencontre o prazer der ser jornalista esportivo, longe de regras impiedosas, assessores implacáveis e muitas outras cercas que nos afastam dos craques consagrados. Gostaria muito de estar aí contigo, nessa cobertura que mesmo singela tem tudo para ser fascinante. Grande abraço e seu blog já ganhou mais um leitor.

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